segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Desconforto

Não agüento mais esse hospital, esse cheiro de loja misturado com defunto, essa comida sem gosto, esse soro horrível, essa cama desconfortável, esses outros pacientes, essa vida de prisioneiro. Nesse um mês que estou aqui, emagreci oito quilos, isso porque eu não me adaptei a essa comida sem sal deles, a falta de refrigerante e doces. Esses dias mesmo, a enfermeira me fez comer jiló, o final é óbvio, vomitei a cama toda.

Já na segunda semana me mudei da sala de observação e vim parar aqui nessa sala. Desde que eu cheguei aqui, três pacientes já morreram: um engasgado, outro asfixiado e último caiu da janela. Hoje somos quatro, Sr. Altair, Dona Jana, o pequeno Pedro Paulo e sua irmã Paula. Todos insuportáveis, o Sr. Altair fala sozinho, Dona Jana quer passar sua experiência para todos e os irmãos vivem brigando.

Ontem, o médico me disse que eu receberia alta em aproximadamente duas semanas, ou seja, mais tempo nesse inferno. Desde que cheguei aqui, ainda não vi nenhum parente, nem conhecido, me disseram que estou desmaiando com freqüência (juro, eu não me lembro) e sempre que vêm aqui, estou desmaiado. Apesar dos desmaios, minha recuperação, segundo médicos, é promissora...motivo de alegria!

Esse tempo aqui está me fazendo mal, sem faculdade, internet, Áurea...
thought control

domingo, 11 de outubro de 2009

Semana

Hoje completa uma semana que estou internado, antes que pergunte, ainda não me deram o diagnóstico. Recuperei a consciência ontem à tarde, sem lembrar o que havia ocorrido, onde estava e quase cheguei a me perguntar quem eu era. Vi-me rodeado por presentes de pessoas que, por incrível que pareça, não conhecia. Teve uma tal de Marluce Santos que me mandou uma caixa de bombons caros. Dona Sebastiana me mandou bolo, Seu José das Cruzes me mandou biscoitos... enfim, ainda não estou me sentindo bem, mas fico feliz por ter pessoas que lembram de mim, apresar de eu não as conhecer.

Incrível como eu não me lembro de nada e ninguém se quer, me conta. A última coisa de que me lembro foi que estava caminhando com Áurea e... não me lembro. Parece que bati a cabeça, não me lembro de absolutamente nada. Bem, se eu não me engano essa é a quarta vez que isso acontece, eu devo ter alguma doença grave, não é possível! Já não basta a quantidade de problemas que eu tenho, ainda sou doente mental. Nessas horas a Áurea poderia estar aqui para me ajudar.

Não consigo me separar de Áurea, e às vezes, quando fico sozinho, paro para pensar em coisas que eu nem entendo. A maioria são coisas fúteis, bizarras e até engraçadas, que quase sempre não tiro da cabeça. Fiquei, certa vez, uma semana inteira pensando que em um passado distante, o homem podia falar a língua de todos os animais e conforme a evolução, foi mais conveniente comer os animais do que conversar com eles. O resultado foi óbvio quando contei para o pessoal da faculdade, riram de mim. O mais engraçado que eu acho é que Áurea sempre acha sentido nos meus pensamentos, é uma viagem.

Fatos.
thought control

sábado, 3 de outubro de 2009

O dia

Começamos a festejar desde cedo, por volta das oito da manhã, e como já havíamos preparado tudo no dia anterior, ficou impecável. Comemos, bebemos, conversamos, planejamos, cantamos e dançamos – para dizer a verdade, Áurea foi quem cantou e dançou... motivos óbvios – e por fim abrimos nossos presentes. Nós compramos três livros, três DVDs de filme, um videogame, um pezinho de jacarandá e dois celulares.

Estava sendo um dia perfeito até meu pai chegar ao fim da tarde, com uma moto azul. Tivemos mais uma discussão. É incrível como só brigamos por causa de Áurea, é uma antipatia incontrolável. Ele deixou a moto, me deu os parabéns e foi embora. De certo modo até fiquei feliz por ele ter vindo, mas achei de extrema arrogância ter discutido de novo comigo. Já superei.

Hoje, duas semanas após o episódio, ainda não terminamos de ver todos os filmes e nem todos os livros. O pezinho de jacarandá ficou lindo na varanda. Ah, ainda não estreamos a moto, mas acho que em breve legalizarei a moto e ai sim. Apesar desse grande transtorno, nossa festa foi maravilhosa, curtimos nossos presentes e o que é melhor, tínhamos a presença de nós dois, almas gêmeas.
Unison.
thought control